Naquela Mesa

     Eu queria que você pudesse entrar na cozinha da minha infância só por um minuto. Não para olhar as paredes, mas para respirar fundo. O ar ali era diferente de qualquer outro lugar; tinha uma textura morna, um perfume de madeira recém cortada que vinha da oficina nos fundos e o cheiro denso do café que minha mãe acabava de passar no coador de pano. Era um cheiro que abraçava a gente antes mesmo de meu pai, o Seu Antenor, dizer “bom dia”.

     A casa era toda de madeira, construída por ele, tábua por tábua. E, por ser de madeira, ela parecia estar viva. Se o sol batia forte, as paredes estalavam como se estivessem se espreguiçando; se o vento soprava, a casa assoviava baixo. Minha mãe conhecia cada um desses sons. Ela sabia dizer se era o vento na fresta da janela ou se era o meu pai chegando da oficina pelo jeito que o assoalho reclamava.

     No centro de tudo isso, estava ele.

     Meu pai era um homem que parecia feito da mesma matéria firme que usava no trabalho: forte, sólido e impossível de dobrar. Quando ele entrava na cozinha, minha mãe já deixava a xícara de esmalte separada sobre a mesa. Ele sempre usava camisas de flanela, e quando passava por mim, o rastro que deixava era o de um homem que passava o dia trabalhando com as mãos. Ele cheirava a trabalho honesto e a serragem fresca.

     Ele se sentava sempre no mesmo lugar, na cabeceira daquela mesa imensa que ele mesmo fez. Ninguém nunca precisou dizer que aquele lugar era dele; era uma lei natural da casa. Minha mãe sentava ao lado dele, e eu, ainda pequena, ficava observando os dois. Eu via o jeito que ele apoiava os braços musculosos na madeira e como ela olhava para ele, com um silêncio que dizia que tudo estava em paz.

     Ele tinha uma calma que me dava a certeza de que nada de ruim aconteceria enquanto estivéssemos ali, naquela cozinha de teto alto e chão que rangia.

     O melhor momento era quando ele pegava o violão.

     Ele não cantava. Meu pai era um homem de poucas palavras e de uma voz que ele guardava para o essencial. Mas quando ele apoiava o instrumento no colo, as cordas de aço falavam por ele. O som batia nas paredes de madeira da cozinha, criando um eco que fazia o meu peito de criança vibrar. Eram melodias graves, bonitas, que preenchiam todos os cantos. Minha mãe continuava seus afazeres na pia, mas eu notava que ela diminuía o passo, como se quisesse caminhar no ritmo das notas que ele tirava.

     Eram mãos grossas, calejadas pelo uso da lixa e das ferramentas, mas que tocavam as cordas com uma delicadeza que eu não conseguia parar de olhar. Para mim, aquele som era simplesmente a voz do meu pai. Era a música que a nossa casa fazia para nos proteger do mundo lá fora.

— Escuta o som, Clara — ele dizia, dando um sorriso de lado só para mim, enquanto minha mãe colocava mais um pouco de café na xícara dele. — A madeira guarda a música dentro dela. A gente só precisa saber como tirar.

     Havia uma alegria tão real naquela cozinha que eu achava que podia pegá-la com as mãos. Era o prazer de ver o meu pai ali, na força da sua idade, e minha mãe cuidando do calor do nosso lar. Eu sentia um orgulho imenso de ser a filha daqueles dois. Naquela época, o café sempre parecia mais gostoso e a vida parecia ser feita de uma madeira que nunca ia quebrar. Eu não tinha pressa de crescer, porque ali, naquela cozinha, tudo era eterno.